dezembro 09, 2017

Um apeadeiro no inferno


Cheguei aqui por obra e graça de um desassossego numa livraria:

Acabei a reler este abancado no bueiro. Para não ser sempre no barbeiro.

E dei por mim a encomendar a temporada toda do inferno. Baratinho. 


novembro 22, 2017

"Há destruições que são necessárias"*


Homens desta espécie serão sempre hostis à terra que os viu nascer, e é impossível que assim não seja. Para eles a sujeição, quer seja a uma igreja, a um país ou a uma sociedade, há-de ser sempre o grande espantalho. Gastam a vida a quebrar grilhetas, mas a sua secreta dependência devora-lhes as entranhas e não lhes dá descanso. 

*Rimbaud

Let's look at the trailer

(clica para aumentar - daqui)

novembro 18, 2017

O nosso mundo é um parque temático


Continuamos alerta. Informa-se que a utilização deste país para algo que não tenha fins recreativos é absolutamente indesejável. Não se esqueça de levar o seu telemóvel. Proteja-se. E não se esqueça dos afectos.  

outubro 26, 2017

Os burrinhos de Cacilhas



Perguntei pelos burrinhos de Cacilhas, e o maganão a quem fiz a pergunta disse-me que procurasse uns no Ministério e outros no Parlamento. Era um desses Voltaires do Chiado que fazem espírito, mesmo à custa dos seus parentes e amigos. 

outubro 21, 2017

resumo da semana

(…)
é preciso trabalhar, se não por gosto, ao menos por desespero, porquanto, bem vistas as coisas, trabalhar é menos aborrecido do que divertir-se.

Baudelaire, "O meu coração a nu"

outubro 20, 2017

Que farei quando tudo arde*?


Frequentei Engenharia Florestal no início dos anos noventa do século passado. Já nessa altura tínhamos a época dos incêndios, mas a época preferida era a dos subsídios, que normalmente durava todo o ano, sem qualquer fiscalização. Nunca, como então, existiram tantos projectos imaginários. O dinheiro circulava, mas apenas alguns conseguiam apanhar boleia. Em algumas dessas boleias foram exauridas as verdadeiras hipóteses de uma reforma florestal planeada. Para isso seria necessário pensar o país como um todo. E o país, nessa altura, tinha a forma de uma betoneira.

Na época dos subsídios o eucalipto começava a dar cartas. As monoculturas florestais, eucalipto e pinheiro, caminhavam de mãos dadas com o despovoamento do interior. Não lhe chamem, por favor, desertificação. Vegetamos, é certo, mas ainda não somos uma espécie vegetal. Com o país a sonhos, modernos, construímos auto-estradas, urbanizações desreguladas, feias, cidades esquecidas da sua história e património (isso veio muito depois), e abandonamos, com enfado, a agricultura. Vieram as ligações público-privadas, os aviões, os helicópteros, as comunicações via satélite. Festejávamos (e festejamos) a época dos fogos com foguetes. Afinal, as bouças eram boas como depósitos de lixo, de abandono, e algum sexo à beira das estradas.

Eternas reformas adiadas, ou parcialmente esquecidas, eternos estudos e debates depois, chegamos ao caos de 2017. Ainda existe uma época definida para os incêndios (como é possível?), a denominada fase Charlie, que acompanha a silly season , sem saber que a silly season em Portugal se vem diluindo, alargando as suas fronteiras. Basta ligar a televisão. Parece que tudo falhou. Vem no relatório da comissão independente. Parece que fenómenos climatéricos únicos confluíram em conspiração odiosa. No final, continuámos a falhar. Falhámos cada vez melhor, sei do que falo, sou sportinguista. Só que desta vez morreram muitas pessoas. Demasiadas. Nas ruas, protestos, apenas em frente das televisões. Nem sequer uma onda de indignação, a não ser nas páginas amarelas das redes sociais. Dançam algumas cadeiras. Não tarda voltamos à normalidade dos estudos. 


burkini natal


outubro 15, 2017

A Catalunha, por exemplo


Não me interessa se o ditador é destro, canhoto ou maneta. Sé é pequeno ou se já torceu o pepino várias vezes. Não me interessa se é moderno ou proto clássico. Não me interessa se o ditador é um democrata. Essa t-shirt é vendida na Zara. Ou na H&M, não sei bem. Não gosto de ditadores nem de ditadorzinhos. Sei alguma coisa de mapas para saber que eles são obra humana. O mesmo serve para as fronteiras. Socorrendo-me de Cardoso Pires, sei bem que, como português, quando nasci, deixei logo de ser criança, passei a ter nove séculos. Outros sentirão o mesmo sob outro nome. Talvez não tão envelhecidos. Outros sentirão o mesmo sob outra bandeira. Talvez não saibam que as bandeiras são coisas de homens. Mas se assim tão importante uma bandeira e um país deixem que sejam os homens e as mulheres a decidir isso. Não decidam por eles.